
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) identificou uma possível relação entre a incidência de radiação solar e a ocorrência de lagartos com duas ou até três caudas. A pesquisa, publicada no Journal of Biogeography, analisou mais de 136 mil registros de biodiversidade e concluiu que esse tipo de regeneração anormal, considerado extremamente raro, aparece com maior frequência em regiões com elevada exposição à radiação solar.
O trabalho foi coordenado pelo professor Lucas Rodriguez Forti, do Centro de Ciências Biológicas da Ufersa e do Observatório Ambiental do Semiárido, em parceria com pesquisadores da Charles Darwin University, na Austrália, e do Institut Natura i Teoria en Pirinèus, na França. O docente também integra o Brazilian Institute of Data Science (BI0S), da Unicamp.
Para chegar aos resultados, a equipe utilizou 136.069 fotografias enviadas por voluntários à plataforma iNaturalist, uma das maiores bases mundiais de ciência cidadã voltadas ao registro da biodiversidade. Entre todas as imagens analisadas, apenas 89 apresentavam casos de regeneração anormal da cauda, distribuídos em 21 gêneros de lagartos.
Ao cruzar os registros com informações ambientais, os pesquisadores observaram que esses casos estavam concentrados em locais com maior incidência de radiação solar.
Segundo o professor Lucas Forti, ainda não há uma explicação definitiva para o fenômeno, mas uma hipótese ganha força.
“Embora a causa exata ainda não tenha sido testada, uma das principais hipóteses em consideração é que a exposição excessiva à radiação ultravioleta provoque estresse oxidativo e danos ao desenvolvimento, favorecendo a ocorrência dessas regenerações anômalas”, explica.
Regeneração é natural, mas múltiplas caudas são exceção
Os pesquisadores explicam que a perda da cauda é um mecanismo de defesa conhecido como autotomia, utilizado por diversas espécies de lagartos para escapar de predadores. Após esse processo, o membro costuma ser regenerado em poucas semanas ou meses.
Entretanto, em situações incomuns, essa regeneração pode resultar no crescimento de duas ou mais caudas, uma condição considerada extremamente rara.
Além de despertar interesse científico, a alteração pode trazer consequências para os animais. Entre os impactos apontados pelo estudo estão dificuldades na locomoção, prejuízos à comunicação entre indivíduos — especialmente em espécies que utilizam a cauda para sinalização territorial — e redução da capacidade de escapar de predadores.
Mudanças ambientais e conservação
Os autores destacam que a pesquisa também contribui para ampliar o entendimento sobre os efeitos dos fatores ambientais no desenvolvimento da fauna silvestre. Embora não tenha sido identificada relação direta com a temperatura, o estudo aponta que as mudanças climáticas podem influenciar os processos responsáveis por essas anomalias.
Ciência cidadã amplia descobertas
Outro destaque da pesquisa é o uso da chamada ciência cidadã, modelo em que pessoas comuns colaboram com a produção de conhecimento científico por meio do compartilhamento de registros da natureza.
Para Lucas Forti, esse tipo de participação tem ampliado significativamente a capacidade dos pesquisadores de identificar fenômenos raros.
“A ciência cidadã não altera a raridade desses fenômenos. O que ela altera é a escala de observação. Um evento que ocorre apenas algumas dezenas de vezes entre mais de cem mil registros continua extremamente raro, mas deixa de ser invisível para a ciência quando milhares de pessoas contribuem com observações distribuídas pelo mundo”, destaca.
Segundo o pesquisador, a colaboração da população também tem permitido investigar outras características incomuns da fauna, como albinismo, leucismo, eritrismo e diferentes tipos de malformações.
“A ciência cidadã de fato tem gerado uma verdadeira revolução na forma como dados científicos, especialmente ligados à biodiversidade, têm sido coletados. Ignorar esse processo, mesmo que vários vieses necessitem de consideração, é negar que a ciência possa progredir para compreender fenômenos que, de outra maneira, permaneceriam inacessíveis”, afirma.
O pesquisador ressalta ainda que um simples registro fotográfico de uma lagartixa com características incomuns pode representar uma contribuição importante para a ciência, auxiliando pesquisadores na compreensão da biodiversidade em escala global.
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