
A segunda temporada de Vermelho Sangue chega ao Globoplay nesta quinta-feira (17) com novos conflitos, descobertas e desdobramentos para os protagonistas da série — Luna (Letícia Vieira), Michel (Pedro Alves), Celina (Laura Dutra) e Flora (Alanis Guillen) — criada por Claudia Sardinha e Rosane Svartman. Em entrevista exclusiva aO Poti News, a criadora conta que a equipe já entregou a sinopse de uma terceira temporada, indicando que o universo da produção ainda tem histórias a serem exploradas.
Segundo Claudia Sardinha, a nova leva de episódios mergulha especialmente nos conflitos internos dos personagens, que agora estão em processo de descoberta e transformação após a apresentação desse universo ao público nos dez primeiros episódios, lançados pelo Globoplay no segundo semestre de 2025.
“Ela [a 2° temporada] fala sobre uma busca muito interna. Eles estão se conhecendo, eles estão se descobrindo, eles também estão se apresentando. Então, eu acho que é uma temporada que tem muito conflito, porque a dramaturgia nasce do conflito, né?”, afirma.
Para a roteirista, os embates também são fundamentais para que os personagens construam suas próprias verdades.
“E por mais que na vida a gente não quer o conflito, às vezes a gente aprende muito, a gente tem que aprender a lidar com os conflitos, né? É onde a gente elabora, constrói, dialoga, cada um a sua verdade e se puxa pra lá e pra cá, pra que a gente chegue numa verdade que alcança todos, né? Que vira junto de verdade, porque não existe uma verdade só.”
Um dos exemplos dessa transformação é Celina, vampira portuguesa que acreditava ter deixado a própria humanidade para trás mas que se esbarra em sentimentos muito humanos no caminho. “Celina achava que já tinha superado a humanidade e de repente se apaixona por uma humana”, pontua.
Da pandemia ao cerrado mineiro
A trajetória de Vermelho Sangue começou antes de chegar à plataforma. O projeto foi desenvolvido durante a pandemia, período em que Sardinha encontrou na criação da série uma espécie de refúgio diante de um momento de incertezas.
Rosane Svartman, que já conhecia o trabalho da roteirista e os temas que despertavam seu interesse, foi quem a convidou para a parceria.
“Rosane [Svartman] que sabia que eu já trabalhava com temas que me movem mais profundamente, que são temas do universo feminino, e sabendo que eu sou bruxa, ela falou: ‘Olha, Claudia, acho que tem aqui um projeto que é a sua cara’. E aí ela me convidou para uma parceria.”
Para a autora, o convite representou uma mudança significativa em sua trajetória profissional.
“E aí começou a revolução da minha vida, porque Vermelho Sangue chega para as pessoas na estreia da primeira temporada [em setembro de 2025], mas ele [o projeto] começa durante a pandemia a ser desenvolvido e cocriado com a Rosane e depois com a nossa equipe de consultores.”
O contexto daquele período também influenciou o processo criativo.
“E aí a gente foi ali no processo [de escrita] durante a pandemia, na minha primeira sala virtual. Eu nunca tinha tido essa experiência, então a gente foi desenvolvendo ao longo do processo, num momento em que… apocalíptico, né? Um momento muito triste. Em que a gente, inevitavelmente, pensava em novos mundos. Em possibilidades utópicas ou distópicas.”
A fantasia acabou funcionando como uma forma de imaginar outras possibilidades.
“Muitas pessoas fugiram para a fantasia. Naquele momento em que estava muito duro lidar com a realidade. E a gente também. A gente teve essa oportunidade de escrever uma série utópica. Então me salvou. Vermelho Sangue começou me salvando dentro da pandemia. Me dando esperança, me conectando com a magia. Me conectando com tudo isso que está hoje no ar na série.”
A chegada da direção de Patrícia Pedrosa foi outro momento destacado pela autora.
“E aí, quando ela [a série] encontra a direção da Patrícia [Pedrosa], ela começa a ganhar corpo, de fato.”
Um mundo fantástico com identidade brasileira
Embora dialogue com tradições e lendas já conhecidas das histórias de vampiros e lobisomens, Vermelho Sangue procura construir sua própria mitologia a partir de elementos cheios de brasilidade, seja pelo símbolo do lobo-guará, seja pela atmosfera interiorana de Minas Gerais. O lobo-guará ocupa posição central nessa proposta de imaginar um universo fantástico autenticamente brasileiro.
Claudia conta que a ideia da “lobimoça-guará” surgiu de um insight de Rosane durante uma experiência na Serrinha do Alambari, no Rio de Janeiro, região associada ao animal.
“A começar pela fagulha da ideia, a lobimoça-guará surgiu da mente da Rosane. Ela teve esse insight quando ela estava na Serrinha do Alambari [Rio de Janeiro], e eu lembro que ela deitou num musgo lá, canalizou e é um território onde existe o lobo-guará!”
A partir dali, a equipe passou a pesquisar o animal e os territórios onde ele vive. A investigação levou o grupo até a Serra da Canastra, em Minas Gerais.

“Então, a partir daí, nós artistas a gente tem que estar com esse campo aberto, da observação, do campo do sentido, do olhar.”, analisa Sardinha.
A pesquisa de campo ajudou a transformar o ambiente em parte da narrativa.
“Então vamos atrás do lobo. Onde vivem? O que comem, né? E aí a gente foi levada ao santuário da Serra da Canastra [Minas Gerais], que é o santuário do lobo-guará. E aí a gente foi até lá, com a equipe, conversar com as pessoas, sentir o cheiro daquele lugar, o cheiro daquele ambiente, sentir o tempo subjetivo da cidade do interior, bem quais eram as condições que faziam com que os lobisomens pudessem existir, porque lá ele existe.”

Para ela, essa aproximação entre pesquisa e imaginação foi determinante para a construção do universo da série.
“A gente ouviu o discurso das pessoas. Então, a gente se conectou com essa sensibilidade, através da empatia e da pesquisa.”
E resume a relação entre realidade e ficção em uma frase: “Às vezes existe mais verdade na ficção do que em um documentário.”
Fantasia para falar de questões reais

Na série, vampiros e lobos servem como instrumentos para discutir questões que extrapolam o sobrenatural. Entre os temas abordados estão autoaceitação, gênero, identidade, raça, território e bioética.
A produção, no entanto, procura apresentar esses temas por meio de uma narrativa que combina diferentes gêneros e públicos. A multiartista destaca durante a entrevista que tais discussões não aparecem isoladamente, mas integradas a elementos como romance, aventura e fantasia.
“E eu acho que a gente coloca no mundo esses assuntos, mas como chega é através de muito romance, muita aventura, muita fantasia, cenários maravilhosos, uma valorização da nossa proximidade, uma valorização do feminino.”
A produção também busca alcançar diferentes gerações, ao acompanhar não apenas jovens, mas suas famílias e personagens em um núcleo rico e diverso. Essa dimensão geracional também aparece em Dona Barbina, interpretada por Bete Mendes, personagem que, segundo a criadora, representa a “sabedoria das anciãs” e a “sabedoria ancestral”.
O impacto nos fãs
Para Claudia Sardinha, a recepção do público se tornou uma das principais recompensas do projeto. A roteirista criou um canal no TikTok para se aproximar de quem acompanha a série e também de leitores de seus livros.
“Conversar com a nossa comunidade de Vermelho Sangue e ver como está transformando a vida dessas pessoas, porque elas me contam histórias inacreditáveis e eu falo assim: ‘Isso pra mim é a verdadeira magia’.”
A autora define essa troca como um processo de mão dupla entre quem cria e quem recebe uma história.
“A capacidade de dar aqui, com o meu trabalho, com o que eu e nós [Sardinha e Svartman] fomos capazes de imaginar, quando acrescenta a imaginação da pessoa que recebe e essa troca conversa, esse diálogo conversa, é transformador, isso pra mim é a sensação mais deliciosa.”
O retorno dos fãs, segundo ela, ultrapassou as expectativas profissionais.
“Eu estou vivendo uma realização profissional muito, muito, muito além do que eu imaginava, assim. E vem da troca com o público. Porque esse é o meu maior presente. E é o meu maior objetivo também.”
Uma série brasileira de fantasia

Para quem ainda associa Vermelho Sangue apenas às histórias tradicionais de vampiros e lobisomens, Claudia apresenta a produção como uma experiência que parte do fantástico para chegar a questões reconhecíveis da vida real.
A autora ressalta que a identidade brasileira está no centro desse processo.
“A gente consegue falar da nossa essência, da nossa brasilidade, do nosso lugar e eu acho que é aí que interessa, sabe?”
Ela também aposta na capacidade de identificação do público com os personagens e seus dilemas.
“É uma série que a partir do fantástico as pessoas vão se identificar e eu espero que elas descubram que elas também são fantásticas.”
Sinopse
Uma trama com suspense, fantasia e romance em Guarambá, santuário do lobo-guará, onde os caminhos de uma lobimoça se cruzam com os de uma humana, sob olhares atentos de vampiros.














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