
Por: Hogla Geovanna Pastel e Rangel Pontes
Um vendaval na Fazenda Tupinambá, em Bodó, interior do estado do Rio Grande do Norte (RN), em 2025, mudou, por instantes, o rumo do sonho da produção de morangos agroecológicos no município. Ao chegar à propriedade, a produtora rural, Edneuman Assunção, se deparou com a lona da única estufa rasgada e com plantas e frutos expostos ao sol. Parte da produção foi perdida. Ela se ajoelhou. Chorou. E pensou que aquele sonho, que por muitos era considerado ousado, tinha chegado ao fim.
“Eu fiquei ‘poxa, Deus, será que o senhor está dizendo que não, não é isso?!’. Meu marido chegou depois e disse ‘eu não acredito que você está assim. A gente conserta com uma lona que tem aqui’”, relatou Edneuman, com os olhos marejados.

O episódio, no entanto, não interrompeu o desejo dela. Mesmo diante dos desafios de implementar uma cultura exótica, considerada incomum em uma região de condições ambientais adversas, a produtora decidiu seguir em frente.
“Foi difícil porque a gente não tinha acesso aos produtos e às tecnologias. Então, tudo teve que ser trazido de fora. Mas havia uma confiança grande de que daria certo”, relembrou.
O período em que morou no Rio Grande do Sul, um dos principais polos produtores de morango do Brasil, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), foi fundamental para o início da produção no semiárido norte-rio-grandense. Lá, Edneuman buscou referências, visitou propriedades e acumulou conhecimento.

De volta ao Rio Grande do Norte, em Bodó, onde nasceu, iniciou a produção do morango de forma experimental, com o objetivo de entender o comportamento da cultura na região: o melhor substrato, a estrutura adequada, os insumos necessários, a época ideal de plantio e o tempo de produção.

O cultivo adotado por ela é o semi-hidropônico, sistema em que a planta não cresce diretamente no solo, mas em um substrato, com irrigação por gotejamento. A técnica oferece maior controle sobre o ambiente de cultivo e melhora a segurança da produção. Atualmente, em 2026, são cerca de 2 mil plantas, em uma área de 600 hectares, com colheita anual que varia entre 1,8 e 2 toneladas.

“Todo o controle é biológico, o que exige criatividade. São usados óleo de neem, calda de alho e cola entomológica, que ajuda a identificar e controlar as pragas na estufa”, destacou a produtora.

Para a gerente de desenvolvimento rural do Sebrae RN, Mona Nóbrega, a produtora rural de Bodó rompeu dois paradigmas: o de atuar com uma cultura exótica no estado e o de adotar a produção agroecológica.
“É uma mudança de mentalidade. A agroecologia ganha destaque por ser adotada, principalmente, pela agricultura familiar. No RN, cerca de 80% dos produtores são desse perfil, e muitos já utilizam essas práticas agroecológicas”, ressaltou.

Em 2025, o chamado “morango do amor” viralizou nas redes sociais e, mesmo no período inicial da produção, a Fazenda Tupinambá passou a atender confeiteiros de municípios como Currais Novos, Cerro Corá, Lagoa Nova e Bodó. Esse momento representou o alcance dos primeiros clientes e a projeção das vendas iniciais.

De acordo com a proprietária, ainda não há uma rota fixa de distribuição para cidades maiores, como Natal, mas há planos de expansão para alcançar outros municípios do estado.

“Imagino ampliar sem perder qualidade de vida. A ideia é oferecer um produto artesanal de qualidade, acompanhando de perto a produção. Já estamos saindo de uma estufa para sete”, afirmou. Os morangos que não são comercializados viram geleias, produtos congelados ou alimento para os animais. Segundo ela, nada se perde.

O trabalho com bioinsumos e biofertilizantes, além de permitir a produção na própria propriedade, não é prejudicial à saúde de quem produz nem de quem consome e ainda reduz os custos para a agricultora.
No município vizinho, em Lagoa Nova (RN), a empresária Sabina Victor, proprietária de uma pousada e café, conta que se encantou com a produção de morangos agroecológicos. Ela utiliza a fruta em tapiocas, drinks, brownies, taças de sobremesa e pudins.

“Antes, eu tinha que comprar nas quitandas uma vez por semana e, às vezes, se estragava muito rápido. E o dela não. Quando a gente precisa, entra em contato, ela entrega e o produto dura até quinze dias”, frisou.

Em outros municípios do estado, produtores também têm desafiado o modelo tradicional de cultivo. Em Cerro Corá (RN), o produtor José Júnior enfrentou resistência familiar ao decidir investir no maracujá.

“Eu sempre vi o sítio como um negócio. Ao invés de trocar meu sítio por uma capital ou outro estado, preferi me modernizar e buscar alternativas para me manter aqui”, afirmou.
A decisão foi tomada em 2004, quando deixou a carreira militar para se dedicar à propriedade do pai e transformar a terra em fonte de renda. Na época, predominava a agricultura de subsistência, com pecuária, milho, feijão e caju. Ainda assim, José iniciou o cultivo de maracujá de forma consorciada com o caju.

No início, a irrigação era totalmente manual. Era preciso acordar cedo, buscar água em poços perfurados pelo governo, destinados a apoiar a pecuária da região, mesmo sendo salina, transportar em caminhonete até um reservatório e, depois, carregar em galões para irrigar as plantas.

A produção começou com 150 plantas, passou para 300 e, atualmente, chega a cerca de 6 mil plantas produzindo durante todo o ano. Ao longo desse processo, um desafio tem comprometido parte da lavoura: a fusariose, doença que ataca a raíz e pode levar à morte das plantas.

“Isso já chegou a impactar 30% da plantação. É desanimador entrar em uma área com cerca de 1.500 plantas e ver que 400 morreram. Realmente entristece e gera um certo desânimo”, lamentou.
Diante do problema, José buscou apoio técnico e encontrou assistência no Sebrae RN, por meio do engenheiro agrônomo Felipe Quirino.
Antes disso, o cenário era de prejuízo. O produtor havia investido R$ 22 mil, mas não conseguia gerar nem R$ 2 mil de receita. O prejuízo ultrapassava R$ 20 mil e ele já pensava em desistir.

A orientação técnica, no entanto, foi direta em focar no que ainda era possível recuperar e produzir. O resultado positivo veio em pouco tempo.
“Após cerca de três meses de assistência, quando Felipe chegou e refizemos os cálculos, eu já estava tendo lucro. Tinha recuperado o investimento e já apresentava lucro, mesmo com o índice de fusário”, relembrou.
Hoje, José possui técnicas para enfrentar a fusariose e a produção consegue chegar até 15 quilos por dia, com picos de até 200 caixas de maracujá. O cultivo sustenta seis famílias e toda a produção é vendida para um único comprador, responsável por distribuir a fruta para parte do estado da Paraíba e para o Rio Grande do Norte.

Se, no maracujá, o desafio ainda é resistir, no açaí o cenário já aponta para expansão. De acordo com a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Sape), culturas como açaí, cacau e café vêm ganhando força, com crescimento superior a 400% nos últimos cinco anos.
Foi assim que Rodrigo Moura, um dos sócios da empresa “Zummm! Açaí”, no município de Pureza (RN), decidiu apostar, há 13 anos, na cultura considerada exótica na região.

Fruto típico da Amazônia, região norte do país, o açaí tem avançado no interior potiguar. “No Pará, foi descoberta uma variedade bastante versátil em diferentes climas. Foi ela que trouxemos para o Rio Grande do Norte e que se mostrou bem adaptada às condições locais. Trata-se da variedade ‘pai d’égua’, da espécie Euterpe oleracea”, explicou.

Apesar da adaptação, o início foi marcado pela falta de informações técnicas. O aprendizado aconteceu na prática, com investimentos em irrigação, manejo e controle sanitário.
“É um prazer repassar o conhecimento que tenho para quem deseja plantar. Não escondo informações de ninguém: compartilhamos tudo para evitar que outros cometam os mesmos erros que enfrentamos. Isso acaba nos tornando uma referência, pois as pessoas sabem que podem aprender conosco. É algo muito gratificante, uma realização pessoal”, afirmou.

Após a colheita, o açaí precisa ser processado rapidamente para manter a qualidade da polpa. E uma das vantagens é a proximidade da empresa à fazenda. Hoje, a indústria conta com cerca de 30 trabalhadores envolvidos em todos os processos.

“Aqui temos aproximadamente 80 hectares plantados. A previsão é fechar a safra de 2026 com cerca de 280 toneladas de fruto e 230 toneladas de polpa”, disse.

Desde 2023, a produção alcançou o mercado internacional, com exportações para Itália, Holanda e, mais fortemente, para o Kuwait. Entre 40% e 45% da produção é destinada ao exterior.
“O RN+Exportação promoveu um encontro com cerca de 20 compradores, principalmente do Oriente Médio. Na ocasião, cada empresa apresentou os produtos, e também tivemos a oportunidade de apresentar o açaí produzido no Rio Grande do Norte para esse grupo. Foi uma ação positiva”, relembrou.

Esse Programa é desenvolvido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte (Sedec), em parceria com o Sebrae RN, em que setenta e duas empresas já estão inseridas para acompanhamento da jornada exportadora, desde o diagnóstico inicial, até a efetiva realização de negócios internacionais. Segundo a Sedec, até o fim do ano 100 empresas devem estar inseridas no programa.
Para o secretário da Sedec, Hugo Fonseca, “embora não seja tradicional na base produtiva potiguar, o açaí mostra a capacidade do estado de atrair investimentos e se inserir em novos mercados, inclusive internacionais. Esse avanço indica que a competitividade do RN pode ir além dos setores já consolidados”.
A expectativa é que, nos próximos anos, o RN+Exportação se consolide como uma política permanente de internacionalização empresarial, ampliando a presença do Rio Grande do Norte no comércio internacional e fortalecendo a economia estadual por meio da geração de renda, emprego e oportunidades de investimento.

Para além dos números, técnicas e desafios, as trajetórias de Edneuman Assunção, José Júnior e Rodrigo Moura traduzem o que há de mais simbólico no novo cenário do campo potiguar. Eles são resistência diante das perdas, ousadia ao apostar no improvável e inovação ao transformar realidades que antes pareciam limitadas pelo clima e pela terra.
Em diferentes regiões do Rio Grande do Norte, os três mostram que, mesmo em condições adversas, muitas vezes consideradas inviáveis, é possível produzir, crescer e abrir caminhos. Seus percursos ajudam a posicionar o estado como referência em diversidade produtiva, adaptação e inteligência no uso dos recursos.
São exemplos de que o campo, quando aliado ao conhecimento, à persistência e à criatividade, se sustenta, se reinventa e se paga. E, acima de tudo, prova que o futuro do agro potiguar também nasce da coragem de quem decide plantar onde muitos não acreditariam ser possível.













