
Um acordo entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a empresa canadense Aura Minerals prevê a relocação de um trecho da BR-226 no município de Currais Novos para permitir a exploração de ouro existente no subsolo da rodovia. As informações foram divulgadas pelo UOL.
De acordo com a empresa, cerca de 670 mil onças de ouro, cada uma equivalente a 31,1 gramas, estão localizadas sob o traçado atual da estrada. A área integra o chamado projeto Borborema, que prevê a retirada de aproximadamente 1,5 milhão de onças do metal ao longo de cerca de duas décadas.
Com a exploração, a companhia estima receita líquida de cerca de US$ 3,06 bilhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 16 bilhões em valores atuais.
Alteração da rodovia
Segundo o DNIT, o trecho da rodovia entre os quilômetros 146 e 150 deixará de integrar o traçado atual. No local existem duas linhas de telecomunicações em fibra óptica, uma aérea e outra subterrânea, além de uma linha de energia.
O novo segmento da rodovia terá cerca de seis quilômetros, extensão ligeiramente maior que o trecho original, que possui 5,3 quilômetros.
Em nota ao UOL, o órgão federal informou que o acordo de cooperação técnica está em fase de assinatura. O DNIT também afirmou que a obra será custeada pela empresa responsável pela mineração.
“O novo traçado, diz, “será integralmente custeado pela empresa proponente, responsável pela elaboração dos projetos, execução das obras e serviços necessários, não resultando em qualquer ônus financeiro, direto ou indireto, para o DNIT”.
O órgão acrescentou que a alteração no percurso da rodovia só ocorrerá após a conclusão das novas pistas.
“Informamos ainda que a alteração somente será efetivada após a conclusão e liberação total dos novos segmentos da rodovia, garantindo a continuidade do tráfego e evitando prejuízos à população usuária do BR”, diz comunicado ao UOL.
De acordo com o cronograma divulgado pela empresa, as obras devem durar cerca de 14 meses. A previsão é iniciar os trabalhos em 14 de abril, com conclusão prevista para 30 de maio de 2027. No local deverão ser escavados cerca de 327,8 mil metros cúbicos de material.
Projeto Borborema
O projeto Borborema reúne três concessões minerárias em uma área de aproximadamente 29 quilômetros quadrados. A operação prevê uma mina a céu aberto com exploração de até 300 metros abaixo da superfície.
A empresa estima taxa média de recuperação metalúrgica de 92,1%. Isso significa que, a cada 100 gramas de metal contidos no minério processado, cerca de 92,1 gramas poderão ser recuperados.
Os depósitos estão situados no cinturão geológico do Seridó, região onde está o Seridó Geoparque Mundial da UNESCO, reconhecido pela UNESCO em 2022 e formado por seis municípios:
- Acari
- Carnaúba dos Dantas
- Cerro Corá
- Currais Novos
- Lagoa Nova
- Parelhas
Relatório operacional da empresa indica que, até 2025, cerca de 198 mil onças já haviam sido extraídas no projeto. No mesmo período, o custo operacional foi estimado em US$ 1.009 por onça produzida, com Ebitda ajustado de US$ 76,5 milhões.
Histórico da mineração
A presença de ouro na região de Currais Novos é conhecida desde a década de 1940, quando garimpeiros identificaram depósitos do metal. Entre as décadas de 1970 e 1990, a área foi explorada pela empresa Xapetuba, que operava a chamada mina São Francisco.
Segundo o geólogo Silas Samuel dos Santos Costa, técnico em mineração ligado ao geoparque do Seridó, a atividade atingiu maior produção entre os anos 1970 e 1980.
“Por conta da crise e da falta de água, a empresa não conseguiu mais fazer o beneficiamento do ouro, e a mina ficou parada muito tempo”, afirmou.
O especialista observa que uma nova etapa de exploração exige licenciamento ambiental e pode gerar impactos nas comunidades próximas.
“Os impactos são a emissão de ruídos, poeira e ultravibração por conta do desmonte de rochas com explosivos”, explicou.
Ele também defende maior integração entre a mineradora e o geoparque para programas de compensação e educação ambiental.
Uso de água no projeto
Um dos aspectos apontados como positivo é o reaproveitamento de água no processo de beneficiamento do ouro. O projeto utiliza esgoto tratado proveniente da área urbana de Currais Novos.
“Eles fizeram contribuições do centro da cidade, que vão por 27 milhas até chegar na mina, onde eles têm um local para tratar esse esgoto”, disse.
Segundo o geólogo, após o tratamento inicial, a água passa por um sistema de processamento na própria mina antes de ser utilizada nas operações.
A reportagem do UOL informou que tentou contato com representantes da Aura Minerals e com a prefeitura de Currais Novos, mas não houve resposta até a publicação do material.













