
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou os debates da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (23), com um discurso enfático em defesa do multilateralismo, do fortalecimento da democracia e do combate às desigualdades sociais e à fome. Em sua fala, o chefe de Estado brasileiro também apontou críticas às medidas unilaterais que, segundo ele, colocam em xeque a autoridade da própria ONU.
Lula alertou para o enfraquecimento da democracia diante da ascensão de forças autoritárias, e reforçou que a pobreza é tão nociva quanto os extremismos. “A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”, disse. O presidente destacou a superação da fome no Brasil, conforme reconhecimento da FAO, mas lembrou que ainda há mais de 670 milhões de pessoas passando fome no mundo.
“A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza”, enfatizou Lula.
Defesa da democracia e soberania brasileira
Sem citar nomes, Lula fez referência a ataques ao sistema democrático brasileiro durante a gestão do ex-presidente Donald Trump. Ele reforçou a importância da independência do Judiciário e a firme atuação do Brasil diante de ameaças ao Estado Democrático de Direito.
“Não há pacificação com impunidade”, afirmou, ao destacar que um ex-presidente brasileiro foi julgado e condenado por atentar contra a democracia. “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.”
Igualdade de gênero, internet e regulação
Lula condenou desigualdades salariais entre homens e mulheres e os ataques à liberdade por meio das redes sociais. Defendeu a regulação das plataformas digitais como forma de proteger os mais vulneráveis.
“A internet não pode ser uma ‘terra sem lei’. Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual”, disse o presidente.
Ele celebrou a promulgação de uma nova legislação brasileira considerada uma das mais avançadas do mundo na proteção de crianças e adolescentes no meio digital.
Paz internacional, Palestina e mudanças climáticas
Lula também abordou temas sensíveis da geopolítica global. Rejeitou o uso da força em conflitos, condenou o genocídio em Gaza e cobrou o reconhecimento do Estado Palestino como caminho para a paz duradoura.
“Nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza. O povo palestino corre o risco de desaparecer.”
Ao tratar da crise climática, Lula reforçou o compromisso do Brasil com a redução das emissões e anunciou a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que visa remunerar países que preservam seus biomas. A COP30, que será sediada em Belém em 2026, foi chamada por ele de “a COP da verdade”.
“Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática”, alertou.
Reforma da ONU e papel do Sul Global
Lula voltou a defender mudanças estruturais na ONU, especialmente no Conselho de Segurança, argumentando que a atual configuração não representa a diversidade do cenário internacional. Ele cobrou que o Sul Global tenha mais voz nas decisões internacionais.
“O século 21 será cada vez mais multipolar. Para se manter pacífico, não pode deixar de ser multilateral.”
O presidente encerrou seu discurso prestando homenagem ao ex-presidente uruguaio José Mujica e ao Papa Francisco, ambos falecidos neste ano, destacando-os como símbolos dos valores humanistas. Finalizou com uma conclamação à coragem e à ação coletiva: “O amanhã é feito de escolhas diárias e é preciso coragem de agir para transformá-lo.”
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