
Metadados de um contrato de prestação de serviços advocatícios no valor bruto de R$ 131,2 milhões entre o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master indicam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes abriu e editou uma versão do documento em janeiro de 2024. As informações foram obtidas pelo Estadão a partir de documentos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, no âmbito da investigação da Operação Compliance Zero.
Segundo os registros, a versão do contrato devolvida por Vorcaro a Viviane de Moraes em 15 de janeiro de 2024 foi posteriormente aberta e modificada no Office 365 utilizado pelo ministro. O perfil associado à alteração aparece identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
A edição teria sido registrada às 23h04 daquele mesmo dia, aproximadamente uma hora e 40 minutos depois de Vorcaro devolver o documento à advogada pelo WhatsApp.
Procurado, Alexandre de Moraes não se manifestou. A defesa de Daniel Vorcaro também não respondeu às informações. O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro acessou e editou o contrato, mas afirmou que isso ocorreu em razão de uma consulta feita pelo setor de compliance da banca.
Como o contrato foi elaborado
O primeiro envio do documento ocorreu em 11 de janeiro de 2024. Na ocasião, Viviane Barci de Moraes encaminhou a Vorcaro uma minuta do contrato pelo WhatsApp.
“Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise. Estou à disposição para qualquer esclarecimento. Abraço. Viviane Barci de Moraes”.
Quatro dias depois, em 15 de janeiro, o banqueiro devolveu o arquivo com alterações.
“Boa noite! Segue o documento preenchido. Foi incluída apenas a cláusula I.3. Por favor, nos indique se está adequada. Caso estejam de acordo, combinamos a assinatura! Um abraço”.
Os registros dessas conversas foram obtidos a partir do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025 durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Na versão analisada, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como autor do documento. Os metadados do arquivo registram informações técnicas, incluindo alterações realizadas no documento e os perfis associados às edições.
Valor do contrato
O acordo previa o pagamento de pró-labore em 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos. O total líquido previsto era de R$ 108 milhões.
A 11ª cláusula estabelecia que os valores seriam livres de impostos. Com a incidência tributária, cada parcela teria valor bruto de R$ 3.646.529,77, levando o montante total do contrato a R$ 131.274.351,72.
Os pagamentos foram interrompidos após a prisão de Daniel Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Segundo as informações apresentadas na investigação, ele estava prestes a viajar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Documentos fiscais do Banco Master encaminhados à CPI do Crime Organizado, do Senado, apontaram que o escritório de Viviane recebeu R$ 80.223.653,84 da instituição financeira entre 2024 e 2025.
Na ocasião, o escritório declarou que “não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos”.
Documentos apresentados à CPI indicam ainda que o banco realizou 22 pagamentos de aproximadamente R$ 3,646 milhões entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, mês em que o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master.
Assinatura e pedido de confidencialidade
Após a etapa de revisão, Viviane de Moraes enviou a versão final do contrato a Vorcaro em 17 de janeiro de 2024.
“Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”, escreveu a advogada.
Em 22 de janeiro, Vorcaro perguntou como deveria ser feita a assinatura do documento.
“Oi, tudo bem? Como podemos proceder na assinatura? Prefere eletronicamente ou mando as vias físicas assinadas?”
No dia seguinte, Viviane informou que estava fora do Brasil e solicitou que os documentos físicos fossem encaminhados a Guilherme Benazzi.
“Bom dia, tudo bem. Espero que esteja bem, também. Estou fora do Brasil essa semana, mas pode enviar as vias físicas assinadas para o Guilherme Benazzi (administrador do escritório), que assinará e devolverá a sua via.”
Na sequência, a advogada pediu sigilo no envio:
“Por favor, mande em um envelope lacrado e confidencial. Obrigada.”
Vorcaro respondeu:
“Oi, tudo bem? Combinado, farei isso! Pode me passar o endereço?”
Viviane informou:
“Rua Campos Bicudo, 98, Itaim Bibi”.
O contrato foi assinado por Vorcaro em 23 de janeiro de 2024. No dia seguinte, Viviane solicitou que o documento também fosse encaminhado por meio digital para assinatura.
Posicionamento do escritório
O escritório Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes acessou e editou o contrato. Segundo a banca, a participação do ministro ocorreu após uma consulta interna de compliance sobre possíveis impedimentos legais para a contratação.
“Em virtude da abrangência do pedido de contratação de prestação de serviços advocatícios pelo Banco Master ao BARCI DE MORAES, o setor de compliance do escritório, como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente. Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”.
Segundo o escritório, não havia impedimento legal para a contratação porque Alexandre de Moraes não havia julgado causas envolvendo o Banco Master.












