
Faleceu nesta terça-feira (13), aos 89 anos, o ex-presidente uruguaio José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, figura emblemática da esquerda latino-americana. Ele estava em sua residência nos arredores de Montevidéu, onde enfrentava um câncer de esôfago. Conhecido por seu estilo de vida modesto e por dirigir um Fusca da década de 1970, Mujica ficou internacionalmente conhecido como “o presidente mais pobre do mundo”.
Mujica governou o Uruguai entre 2010 e 2015, período em que consolidou políticas progressistas, como a legalização da maconha, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização do aborto. Além das medidas legislativas, também se destacou por ações sociais como a ampliação do salário mínimo, programas de habitação e distribuição de laptops para alunos e professores.
“Me dediquei a mudar o mundo e não mudei nada, mas me diverti. E gerei muitos amigos e muitos aliados nessa loucura de mudar o mundo para melhorá-lo. E dei sentido à minha vida”, declarou em entrevista ao jornal espanhol El País, em novembro de 2024.
Antes da política institucional, Mujica foi guerrilheiro do Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, grupo que atuou contra a ditadura uruguaia nas décadas de 1960 e 1970. Preso quatro vezes, ficou mais de uma década detido — parte dela em solitária. Sua experiência foi retratada no filme Uma Noite de 12 Anos, do diretor Álvaro Brechner. Em entrevista ao sociólogo Emir Sader, relatou como sobreviveu ao isolamento. “Se você pegar uma formiga e colocá-la perto do ouvido, vai ouvi-la gritar. Isso eu aprendi no calabouço. [Também] guardava umas migalhas de pão porque havia uma ratazana que aparecia sempre lá”, contou.
Com o fim da ditadura, ajudou a fundar o Movimento de Participação Popular, integrante da Frente Ampla, coalizão de esquerda que o levou à Presidência. Antes disso, foi deputado, senador e ministro da Agricultura.
De acordo com o historiador Rafael Nascimento, professor da Universidade de Brasília, Mujica “é celebrado não apenas por suas realizações políticas, mas por sua ética de vida, por sua simplicidade e por sua luta por justiça social”. Durante seu governo, a pobreza caiu de 39% para 11,5%.
Mujica também era um defensor fervoroso da integração latino-americana. “Ou nos integramos, ou não somos nada”, costumava dizer. Para ele, apenas a união dos países do continente permitiria enfrentar desafios globais de forma autônoma. “Precisamos, para nosso próprio interesse, de uma política de colaboração entre todos os latino-americanos para multiplicar nossa força no mundo”, afirmou, em 2023.
Em dezembro de 2024, já debilitado, recebeu em casa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o homenageou com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. “Essa medalha que eu estou entregando ao Pepe Mujica não é pelo fato de ele ter sido presidente do Uruguai. É pelo fato de ele ser quem é”, disse Lula, emocionado. “Entre os presidentes que conheci, Mujica foi a pessoa mais extraordinária.”
*Com Informações de Agência Brasil
Lula alerta: sem união continental, América Latina continuará marcada pela pobreza













