Por Rangel Pontes.
Lua Andrade trabalhava como prestadora de serviços em um restaurante de Recife, Pernambuco, quando, após deixar a empresa, descobriu que estava grávida de três meses. Naquele momento, já no Rio Grande do Norte(RN), decidiu dedicar mais tempo à filha que estava por vir. Ao mesmo tempo, enfrentava desafios relacionados à própria alimentação, devido à intolerância à lactose e às alergias a corantes e conservantes. Mais tarde, descobriu que a filha, Bella Andrade, também apresentava restrições alimentares. Nas prateleiras dos supermercados, porém, encontrava os produtos que elas não podiam consumir.
“Eu via que não tinha muita opção. Você ia ao mercado e não encontrava produtos saudáveis, saborosos e com boa textura”, relembra Lua.
Diante dessa realidade, ela passou a adaptar receitas dentro de casa para atender às necessidades alimentares. Os produtos começaram a ser compartilhados com parentes e, diante da boa aceitação, a chefe de cozinha enxergou uma oportunidade de negócio.
“A gente acorda de manhã e quer comer um pão com ovo, com queijo. É um alimento que une a família e está presente na mesa de todo mundo”, afirma.
Foi a partir desse pensamento que nasceu a escolha do trabalho com as massas. A primeira receita foi a massa de batata-doce. Foram mais de cem testes até chegar ao resultado desejado. Surgiu, então, há seis anos, a Elas Vida Leve, padaria inclusiva de Currais Novos(RN) que produz, semanalmente, cerca de 11 mil pães sem glúten, sem lactose, sem açúcar, sem corantes e sem conservantes.

O processo de inovação continuou. Segundo Lua, um dos maiores desafios foi desenvolver a massa de inhame.
“Foi a mais trabalhosa. Passei cerca de seis meses testando. Graças a Deus, hoje tanto a de batata-doce quanto a de inhame são um sucesso”, comemora.
Dados da Receita Federal, levantados pelo Sebrae Rio Grande do Norte, mostram que o número de mulheres no quadro societário de empresas no RN cresceu 78,6% nos últimos seis anos, passando de 79.658 em 2021 para 142.273 em 2026.
Com o crescimento da demanda da empresa de Lua, o empreendimento se expandiu de forma gradual. Os clientes se fidelizaram, a produção aumentou e a equipe foi ampliada. Atualmente, 87% da mão de obra da empresa é composta por mulheres.

Para a empreendedora, esse percentual representa mais do que uma simples contratação. Simboliza, de acordo com ela, independência financeira, autonomia e transformação de vida para outras mulheres. Um exemplo é a trajetória de Aylana Daniele, primeira funcionária da empresa, que ingressou como auxiliar de serviços gerais e hoje ocupa o cargo de coordenadora-geral da fábrica.
“Somos capazes de construir negócios de sucesso. Conseguimos administrar a casa e também empresas lucrativas. Temos uma visão ampla das situações, com um olhar cuidadoso, criterioso e atento aos detalhes”, destaca Lua.

O apoio do Sebrae RN também marcou uma nova fase na trajetória da empresária. A Elas Vida Leve conquistou o selo Feito Potiguar, que valoriza produtos e empresas do estado, e garantiu o terceiro lugar nacional no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria Pequenos Negócios.
“Tem muita gente competente acompanhando nossa empresa, querendo nos ver crescer e comemorando nossas conquistas. Isso faz diferença, porque empreender no Brasil não é fácil. Às vezes você acorda desmotivado, mas recebe uma mensagem de alguém perguntando como pode ajudar. Uma conversa pode mudar completamente uma trajetória”, relata.

A história da empreendedora reflete a importância dos pequenos negócios para a economia potiguar. Segundo a gerente da Unidade de Desenvolvimento Rural do Sebrae RN, Mona Nóbrega, o protagonismo feminino tem avançado tanto no meio urbano quanto no rural. De acordo com ela, 54% dos negócios do Rio Grande do Norte são liderados por mulheres. No entanto, esse percentual pode ser ainda maior.
“Muitas vezes, as mulheres estão no dia a dia da propriedade rural, mas não aparecem formalmente como líderes. A propriedade não está no nome delas, embora sejam responsáveis por decisões importantes e pela condução do negócio”, exemplifica Mona.
Segundo o Boletim dos Pequenos Negócios 2025, elaborado pelo Sebrae RN, até novembro de 2025, os pequenos empreendimentos foram responsáveis por 98,14% dos empregos formais gerados no Rio Grande do Norte. Além disso, eles concentram 37,29% do estoque total de empregos formais do estado.
Apesar de ser considerada um ”pequeno negócio”, de pequeno a Elas Vida Leve tem apenas a nomenclatura. Uma nova fábrica está sendo construída em Currais Novos, em um terreno de quase um hectare. Paralelamente, Lua articula a aquisição de novos equipamentos na China para ampliar a capacidade produtiva da empresa. De acordo com a empreendedora, a expansão deverá elevar a produção entre 600% e 800%.
“Ainda este ano quero abrir mercado em Fortaleza e Maceió. No próximo ano, a meta é chegar ao Sudeste, com atuação no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e ampliar nossa presença em São Paulo”, projeta a empreendedora.
Enquanto Lua Andrade transformava uma necessidade pessoal em um negócio capaz de gerar emprego e renda, outra história de empreendedorismo ganhava força no interior do Rio Grande do Norte. No campo, no município de Maxaranguape(RN), a produtora rural Rosilene Duarte encontrou na avicultura uma oportunidade de ampliar a renda familiar e abrir novos mercados para a produção local.
À frente da Boutique Fazenda, Rosilene protagonizou uma conquista inédita. A granja tornou-se a primeira unidade de produção de ovos em um assentamento rural certificada pelo Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do Rio Grande do Norte (Idiarn). Essa certificação ampliou as possibilidades de comercialização, agregou valor ao produto e abriu caminho para o crescimento do negócio.

O que começou com apenas 30 aves se transformou em uma granja com cerca de 300 galinhas e capacidade produtiva superior a 300 mil ovos por ano. De acordo com a produtora Rosilene, o apoio do Sebrae RN foi decisivo nesse processo de expansão.
“As consultorias do edital de pré-aceleração Impacta 2025 foram fundamentais para a estruturação dos nossos processos internos. O amadurecimento proporcionado pelo programa nos levou à conquista do primeiro lugar no edital, impulsionando diretamente as áreas financeira, comercial e de marketing”, destacou a empreendedora.
Os avanços refletiram também na ampliação dos mercados atendidos. A Boutique Fazenda passou a atuar no segmento B2B (business to business), fornecendo produtos para outras empresas, além de conquistar o selo Feito Potiguar.
Embora histórias como a de Rosilene demonstrem a força do empreendedorismo feminino no campo, ainda existem barreiras a serem superadas. Uma das principais está relacionada ao acesso ao crédito.
“Muitas mulheres ainda enfrentam questionamentos que não costumam ser direcionados aos homens, como a necessidade de aval de terceiros para obtenção de financiamentos”, avalia Mona Nóbrega.

O ano de 2025 marcou um dos períodos mais desafiadores da trajetória da empresária Rosilene Duarte. Ela foi diagnosticada com câncer e precisou conciliar o tratamento com a administração da empresa. Para a empreendedora, esse momento delicado da sua história exigiu resiliência e trouxe importantes aprendizados sobre gestão.
“Conduzir o negócio sob essas condições redefiniu minha perspectiva sobre liderança e gestão de crises. A experiência mostrou que a solidez de uma empresa se comprova justamente na capacidade de manter a estabilidade durante momentos de extrema adversidade. Isso me preparou para enfrentar qualquer desafio futuro de mercado”, relembrou.
Nesse período, ela contou com o apoio do filho, Jefferson Igor, que desenvolveu um sistema de gestão avícola que passou a modernizar a rotina da granja. Essa plataforma utiliza inteligência artificial integrada ao WhatsApp para registrar e organizar automaticamente informações sobre produção, consumo de ração, mortalidade das aves e outros indicadores da atividade. Além da inovação tecnológica, o trabalho também fortaleceu a presença da marca no ambiente digital.
“No aspecto comercial, ele reestruturou toda a nossa estratégia de captação no meio digital. Hoje, todos os nossos clientes foram conquistados exclusivamente por meio das redes sociais”, afirmou Rosilene.

Para ampliar a visibilidade dessas trajetórias, o Sebrae RN mantém iniciativas voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo feminino. Entre elas está a Rota Filhas do Agro, criada para destacar mulheres que lideram negócios rurais em segmentos como avicultura, produção de mel, pecuária e fabricação de queijos.
“Elas fazem a diferença pelo cuidado com a qualidade, pela preocupação com a identidade dos produtos e pela capacidade de agregar valor ao que produzem. Precisamos mostrar essas histórias para que outras mulheres também se reconheçam como protagonistas”, enfatiza Mona Nóbrega.











