
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) identificou duas novas espécies de peixes anuais na bacia do rio Piranhas-Açu, ampliando o conhecimento sobre a biodiversidade da Caatinga e reforçando a importância da conservação dos ambientes temporários existentes no semiárido potiguar.
Batizadas de Hypsolebias guararug e Hypsolebias negobispoi, as espécies vivem exclusivamente em lagoas sazonais que surgem durante o período chuvoso. A descoberta foi publicada na revista científica Neotropical Ichthyology e integra o doutorado do zoólogo Yuri Abrantes, do Programa de Pós-Graduação em Sistemática e Evolução (PPGSE/UFRN).
Além de revelar uma fauna ainda pouco conhecida, o estudo acende um alerta: mesmo recém-descritas pela ciência, as duas espécies já apresentam elevado risco de extinção em razão da degradação dos seus habitats.
Segundo o professor Sérgio Lima, do Laboratório de Ictiologia Sistemática e Evolutiva da UFRN, a descrição formal desses organismos representa um passo decisivo para sua preservação.
“A partir desse trabalho de taxonomia, essas espécies passam a existir para a ciência. Isso permite avaliar seu estado de conservação e considerar sua ocorrência nos processos de licenciamento ambiental”, explica.
Descoberta amplia mapa da biodiversidade potiguar
A pesquisa teve início em junho de 2024 e foi desenvolvida com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sob orientação dos professores Sérgio Lima, da UFRN, e Waldir Miron Berbel-Filho, da University of West Florida, nos Estados Unidos.
De acordo com Yuri Abrantes, a investigação é resultado de anos de trabalho de campo iniciado ainda durante sua graduação.
“Essa pesquisa começou antes mesmo do doutorado, ainda na graduação. Já coletamos peixes em diferentes estados do Nordeste, principalmente na região costeira que abrange os estados do Ceará e do Rio Grande do Norte. Nessa região, nossos estudos já resultaram na descoberta de seis novas espécies de peixes das nuvens, sendo duas no Ceará e quatro no Rio Grande do Norte.”
As expedições duravam poucos dias, mas eram seguidas por meses de análises envolvendo morfologia, genética, qualidade da água e avaliação do estado de conservação das espécies.
Animais vivem apenas durante o período das chuvas
Conhecidos popularmente como “peixes das nuvens”, esses animais despertaram curiosidade entre moradores da região muito antes de serem estudados pela ciência. Como aparecem apenas após as primeiras chuvas, acreditava-se que caíam do céu.
Na realidade, os ovos permanecem enterrados no solo durante a estiagem e eclodem quando as lagoas temporárias voltam a se formar.
Esse ciclo de vida faz com que cada população permaneça isolada em pequenas áreas alagadas, tornando os peixes extremamente vulneráveis a alterações ambientais provocadas por obras, atividades agropecuárias e outros empreendimentos.
Espécies já são consideradas ameaçadas
As análises realizadas pelos pesquisadores indicam que Hypsolebias guararug deve ser enquadrada na categoria Em Perigo (EN), enquanto Hypsolebias negobispoi apresenta risco ainda maior, sendo classificada como Criticamente em Perigo (CR).
Segundo Yuri Abrantes, a principal ameaça está na fragilidade dos habitats.
“São lagoas temporárias, isoladas, que podem facilmente deixar de existir. Um trator pode passar por cima, uma estrada pode ser construída sobre elas. Além do impacto antrópico, a falta de conhecimento também contribui para que essas espécies se tornem ameaçadas”, afirmou.
Para os pesquisadores, incluir essas espécies nas listas oficiais de fauna ameaçada é um passo importante para fortalecer políticas públicas de proteção ambiental.
Pesquisa investiga efeitos da contaminação ambiental
Durante o estudo, a equipe identificou características incomuns em parte dos exemplares analisados, incluindo padrões intermediários de coloração entre machos e fêmeas, indivíduos cegos e peixes com deformações na coluna vertebral.
A descoberta motivou novas investigações sobre possíveis efeitos das alterações ambientais nesses organismos.
“Essa característica pode ser uma forma de as populações desses peixes responderem às mudanças ambientais. É justamente isso que estamos investigando”, afirmou Yuri.
As análises da água revelaram a presença de hidrocarbonetos derivados de petróleo em todas as lagoas estudadas, inclusive em uma área onde existe um poço de petróleo em operação a menos de dez metros do habitat das espécies.
Apesar da confirmação da contaminação, os pesquisadores ressaltam que ainda não é possível estabelecer uma relação direta entre os compostos encontrados e as alterações observadas nos peixes.
“A única coisa que podemos afirmar é que a água está contaminada por hidrocarbonetos. Ainda não sabemos como nem em que medida isso está afetando essas espécies”, explica.
Aliados do equilíbrio ambiental
Além de contribuírem para o conhecimento científico, os peixes anuais desempenham funções importantes nos ecossistemas da Caatinga.
Ao se alimentarem de larvas de mosquitos, inclusive de espécies transmissoras de doenças como dengue, zika e chikungunya, ajudam a controlar naturalmente a população desses insetos.
“Esses peixes podem estar exercendo um papel ecológico muito importante ao se alimentarem das larvas de mosquitos vetores de doenças”, destaca Yuri.
Os pesquisadores também acreditam que essas espécies poderão atuar como bioindicadoras da qualidade ambiental.
“Uma vez que identificamos essas características incomuns em ambientes contaminados e não observamos esse padrão em ambientes preservados, elas podem servir como um bioindicador da qualidade ambiental”, afirma o pesquisador.
Ciência, território e memória
Os nomes escolhidos para as novas espécies também valorizam aspectos históricos e culturais. Hypsolebias guararug resgata a antiga denominação tupi-guarani do rio Piranhas-Açu, que significa “rio dos pássaros”. Já Hypsolebias negobispoi homenageia o filósofo e líder quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, reconhecido nacionalmente pela defesa dos saberes tradicionais e da preservação da natureza.
Para a equipe da UFRN, conhecer essas espécies representa o primeiro passo para garantir sua proteção e preservar os serviços ambientais prestados por esses pequenos peixes, fundamentais para o equilíbrio ecológico da Caatinga.
Uern abre 431 vagas gratuitas para cursos de ballet, teatro, dança e musculação em Natal













