
Dificuldades para equilibrar o orçamento, necessidade de complementar a renda e pagamento de despesas básicas estão entre os motivos que levam mulheres a recorrer às plataformas de apostas online, segundo a pesquisa “Mulheres & Bets”, divulgada nesta segunda-feira (17). O levantamento reuniu dados nacionais e entrevistas qualitativas com mulheres das classes C, D e E, com atenção às regiões Nordeste e Sudeste.
A pesquisa quantitativa ouviu 2.008 pessoas em todo o Brasil nos dias 8 e 9 de julho. Já a etapa qualitativa contou com 60 participantes entrevistadas entre junho e agosto, com foco nas duas regiões. O estudo foi realizado pelo estúdio CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA.
Embora a pesquisa não apresente percentuais específicos apenas para o Nordeste, os relatos obtidos na região apontam a relação entre as apostas e situações de vulnerabilidade econômica.
Mais da metade tem relação com apostas
De acordo com os dados nacionais, 42% das mulheres entrevistadas afirmaram que apostam ou já apostaram em plataformas online. Outros 12% disseram não apostar, mas ter alguém na família que utiliza esses serviços.
Considerados em conjunto, os dois grupos representam 54% das mulheres pesquisadas.
Entre as principais motivações declaradas para apostar estão:
- 21,5% buscam uma renda extra;
- 19% citam a possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente;
- 16% utilizam as apostas com a expectativa de pagar despesas básicas;
- 11,5% afirmam recorrer às plataformas para quitar dívidas.
Segundo Beatriz Della Costa, cientista social, fundadora e codiretora da CLARICE, as apostas podem ser percebidas como uma alternativa rápida diante de dificuldades para manter o orçamento doméstico, principalmente entre mulheres das classes D e E.
Mães aparecem entre as principais apostadoras
O levantamento também encontrou uma proporção maior de apostadoras entre mulheres que têm filhos. Nesse grupo, 22,7% são apostadoras, contra 14,6% entre mulheres sem filhos.
Entre as mulheres que apostam, 72% são mães. O estudo relaciona esse perfil à pressão financeira e à necessidade de administrar despesas familiares.
A situação também tem sido acompanhada por órgãos de defesa do consumidor. Em Natal, o Procon passou a discutir os riscos de superendividamento relacionados às apostas online.
Cassinos virtuais são preferência entre mulheres
A pesquisa identificou diferenças nos tipos de apostas escolhidos por homens e mulheres. Entre as mulheres que apostam, 48% afirmaram preferir cassinos online, incluindo roleta e jogos semelhantes ao chamado “Tigrinho”.
As redes sociais também aparecem como uma das principais portas de entrada para as plataformas. Segundo o levantamento:
- 24% conheceram as apostas pelas redes sociais;
- 23% chegaram às plataformas por indicação de amigos;
- 18% conheceram por meio de influenciadores;
- 14% tiveram contato com as apostas por familiares.
Além disso, 37% das apostadoras afirmaram já ter recebido algum benefício para indicar plataformas de apostas a outras pessoas.
Pesquisa também registra impactos emocionais
Os relatos reunidos no estudo apontam ainda consequências emocionais associadas às apostas, incluindo casos de ansiedade e depressão após o início da prática.
Apesar dos relatos, somente 13% das mulheres que apostam ou já apostaram afirmaram ter procurado algum tipo de ajuda.
O levantamento ocorre em um cenário de expansão dos mecanismos de proteção aos usuários. Dados anteriores indicam que quase 700 mil pessoas já utilizaram ferramentas de autoexclusão de plataformas de apostas.
A pesquisa quantitativa considerou a distribuição populacional indicada pelo Censo 2022 e pela Pnad 2025. A etapa qualitativa concentrou-se em mulheres de 18 a 58 anos das classes C, D e E residentes no Nordeste e no Sudeste.













