
Características físicas podem influenciar a forma como as pessoas são percebidas e avaliadas socialmente, muitas vezes associadas a qualidades consideradas relevantes para a convivência e interação. Entre esses elementos, a cor dos cabelos grisalhos pode interferir diretamente nas percepções sobre envelhecimento, identidade e papel social, especialmente entre mulheres.
Em estudo analisado pelas pesquisadoras Bárbara Santos Aires, mestra em Têxtil e Moda, e Andrea Lopes, doutora em Gerontologia, os cabelos brancos e grisalhos são apresentados como elementos carregados de significados sociais distintos, que oscilam entre percepções positivas e negativas ao longo das representações culturais.
Durante o estudo das pesquisadoras, as publicações científicas indicaram que esses significados não são fixos e mudam conforme o contexto social e cultural. Em parte dos trabalhos analisados, os fios grisalhos são associados a atributos como independência, autonomia e autenticidade. Já em outra parcela dos estudos, aparecem relacionados a ideias como perda, decadência e estereótipos ligados ao envelhecimento.
Os dados também mostram que há pesquisas que colocam essas duas leituras em diálogo, evidenciando que o significado dos cabelos brancos não é único, mas construído socialmente a partir de diferentes visões sobre o envelhecer.
Quando o espelho muda o significado
Durante a pandemia de Covid-19, o debate ganhou ainda mais visibilidade. O período de isolamento social impulsionou um movimento de mulheres que optaram por assumir os fios naturais, em um contexto marcado pela menor exposição pública e por reflexões sobre autocuidado e identidade. A tendência reforçou a ideia de aceitação pessoal e ressignificação da própria imagem. Entre as personalidades que aderiram à mudança estão Samara Felippo, Suzana Alves e Andie MacDowell, contribuindo para ampliar a visibilidade dos cabelos grisalhos e fortalecer discussões sobre liberdade estética e envelhecimento.

Para Arthê Ribeiro, Colorista e Especialista em Transformações, a transição dos fios tingidos para os grisalhos naturais ainda é um desafio, principalmente por questões técnicas que exigem tempo e paciência.
“Tecnicamente, 90% dos cabelos tingidos não chegam ao branco com processos químicos e é necessário realmente esperar pra que essa transição se conclua apenas cortando, o que deixa algumas clientes frustradas”, explicou.
A profissional destaca que o papel do colorista vai além da técnica, envolvendo também acolhimento durante o processo de mudança.
“Nós estamos ali pra ajudar a tornar o processo mais leve, seja orientando, cuidando, fazendo cor, corte… E quando elas finalmente chegam no resultado almejado por meses, ou até anos, a sensação é indescritível!”
Na avaliação da especialista, a forma como a sociedade enxerga os cabelos grisalhos tem mudado nos últimos anos, impulsionada por novos padrões de beleza e representatividade.
“Com certeza tem mudado, existem todos os tipos de perfis de mulheres: as que se encontraram nos fios naturais e as que pintarão até partir desse plano! Mas as referências de mulheres bonitas e bem-sucedidas estão cada dia crescendo mais, fazendo com que as mulheres ‘comuns’ também consigam se enxergar com estes visuais”, garante a profissional.
Ela observa, porém, que a resistência ainda existe em alguns grupos, especialmente entre mulheres mais velhas. “Com certeza, as mulheres da melhor idade, 60+, em sua maioria ainda têm resistência a se ver de cabelos naturais: seja branco ou cacheado/crespo. Em contrapartida, as que assumem, se sentem poderosíssimas e revolucionárias, à frente do tempo”.
A colorista destaca que o ambiente social pode interferir diretamente na forma como cada mulher lida com os fios naturais. “Apesar de ter melhorado, o meio social influencia demais isso. Em famílias mais tradicionais, é mais comum ver mulheres que tingem e alisam os cabelos, pois ainda seguem os tradicionalismos de outrora” reflete a especialista em transformações.
“Quem tem oportunidade de viajar e ter outras vivências ou vive num meio mais artístico, acabam tendo sua naturalidade bem enaltecida, fortalecendo assim a autoestima e autoconfiança”, finaliza Arthê Ribeiro.
Entre autoimagem e a construção midiática do belo
Ao refletir sobre a relação com a própria imagem e a forma como o cabelo influencia a percepção social, a docente do Departamento de Comunicação da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), doutora em Comunicação e pesquisadora nas áreas de mídia e estética, audiovisual, cinema, gênero e narrativas contemporâneas, Daiany Dantas recorre a uma cena da série Fleabag para ilustrar sua visão.

“Em Fleabag tem uma cena em que ela [a protagonista] fala para o cabeleireiro, e ele diz assim ‘ah, cabelo não é tudo’, e ela responde ‘cabelo é tudo sim’, porque ele é a diferença entre um dia bom e um dia ruim, é como as pessoas te percebem. Nós vivemos uma agenda de existência que inclui escapar de qualquer coisa estética, física, qualquer coisa determinada por características corporais.”
Ao discutir como a mídia e o cinema ajudam a sustentar padrões de beleza e juventude feminina, ela observa que essa construção não é recente e segue atravessando diferentes gerações. “Eu fui criança nos anos 80 e ligava a TV e via programas em que meninas de 12, 13 anos eram exaltadas como musas do verão. A gente tem uma tradição muito forte de associar beleza à juventude.”
Mesmo com mudanças no debate público e maior vigilância sobre representações, ela avalia que essa lógica ainda não foi rompida. “Hoje a gente pensa que mudou, mas não necessariamente mudou. A gente ainda vive a mesma cultura, só que agora com mais códigos e restrições sobre o que não deve ser permitido.”
Nesse cenário, ela também destaca como mulheres que escapam desses padrões costumam ser percebidas como figuras de resistência.
“Eu percebo que essas mulheres são chamadas ‘mulheres difíceis’, são mulheres que oferecem intempéries, estão na contracorrente, são adversas à homogeneização. Elas são vibrantes, incríveis, faróis, mas difíceis no sentido de oferecerem resistência ao sistema. Não são tão fáceis de serem encontradas. A gente vai fazendo a nossa constelação, porque o que interessa é encontrar nossos pares, se sentir acolhida, viva, e reconhecer sua existência.”
Ao tratar dos cabelos grisalhos como expressão estética e política, a docente destaca que evita o termo “assumir”, por entender que ele não traduz plenamente a relação de autonomia com o próprio corpo.
“Eu percebo como um gesto estético e político os cabelos grisalhos… eu nunca gostei de dizer ‘assumir’. Eu acho mais potente ostentar meus cabelos grisalhos, possuir meus cabelos grisalhos, ser dona dos meus cabelos. Isso é um gesto político, porque tudo é político.”
Ela reforça que toda escolha estética carrega significado social e político, independentemente da aparência.
“É político ter o cabelo grisalho, pode ser político ter o cabelo loiro. Foi extremamente político para a Madonna, nos anos 80, tingir o cabelo de platinado para evocar divas do cinema e criar uma paródia do feminino – algo padronizado, mas ao mesmo tempo contraditório, escorregadio e insubmisso.”
Entre o tempo e o reconhecimento de si

Para a psicóloga Rafaella Leite, mudanças na aparência podem estar ligadas a transformações internas e emocionais. “Mudanças na aparência pode ser um reflexo de uma mudança que começou por dentro, no íntimo daquela mulher e depois externalizada como marco de uma transição”, explica.
Nesse processo, assumir os fios brancos pode, segundo ela, estar associado a um movimento de maior consciência de si e ruptura com padrões socialmente impostos.
“Quando uma mulher decide assumir os grisalhos, ela traz à consciência o querer dela, que parte do seu autoconhecimento. É uma construção, uma reafirmação da identidade enquanto pessoa única”, pontua.
A psicóloga observa que essa decisão pode ganhar sentidos diferentes a depender do nível de consciência envolvido. Em alguns casos, pode representar liberdade e valorização pessoal; em outros, ainda há forte influência de padrões estéticos que moldam comportamentos.
“A mulher sofre imposições sociais que a marcam inconscientemente, uma delas é nunca parecer envelhecida.”
É nesse cenário que muitas recorrem a procedimentos estéticos e tinturas como forma de corresponder a expectativas reforçadas pela publicidade e pelas redes sociais. Para a profissional em saúde mental, ao abandonar a coloração e assumir os grisalhos, algumas mulheres também podem estar ressignificando a própria imagem e exercendo autonomia sobre ela.
Mais do que uma mudança visual, o gesto pode indicar um processo de elaboração subjetiva da autoimagem e da autoestima. Quando essa escolha é consciente, ela tende a impactar a forma como a mulher se percebe. “Partindo de uma escolha consciente e da autoaceitação, os grisalhos podem existir como um potencializador da autoestima dessa mulher, que passa a enxergar o seu valor além da sua aparência.”, garante Rafaella Leite.
Entre a ruptura e a política do olhar
A decisão de não pintar mais os cabelos nem sempre vem acompanhada de uma ruptura barulhenta; muitas vezes, nasce de um acúmulo silencioso de experiências. Foi assim que aconteceu com Elizabeth Alves, que antes dos 40 anos, ela já havia atravessado duas décadas convivendo com fios brancos que chegaram cedo demais para os padrões sociais, e, ainda assim, permaneceram.
“Comecei a ter os primeiros fios aos 12 anos de idade e era bem diferente alguém nessa idade ter, me sentia diferente”, relembra Alves.

Ao longo da vida adulta, o cabelo deixou de ser apenas aparência e passou a operar como leitura social. Nesse ponto, a supervisora de loja identifica uma assimetria persistente entre homens e mulheres.
“Com toda certeza homens grisalhos são charmosos. Mulheres são desleixadas, eles dizem, principalmente mulheres falam isso”, observa.
Nesse jogo de percepções, o cuidado com a imagem surge como uma espécie de mediação entre o que se é e o que se espera parecer. “Com certeza a cor do cabelo já é bem estigmatizada, então sempre tentar estar mais arrumada ajuda para contrastar com a cor”, diz, situando o cabelo como elemento que não escapa à política do olhar.
O cotidiano também impõe exigências práticas. Com cabelos longos e cacheados, ela descreve uma relação de manutenção constante, intensificada pela porosidade dos fios brancos.
“Principalmente o meu, que é enorme e cacheado. O cabelo branco é muito poroso, demanda mais cuidado e produtos adequados”, explica.
Ainda assim, aquilo que antes se impunha como rotina rígida de tintura foi se convertendo em escolha, e, com ela, uma sensação de alívio e reposicionamento diante da própria imagem.
“É exatamente essa sensação de liberdade. Eu me via obrigada a sempre pintar o cabelo de 15 em 15 dias. Para mim, traz leveza [não pintar mais]”, afirma.
Mas a liberdade não elimina completamente a exposição. O corpo que foge do padrão ainda provoca reação. Olhares, comentários e julgamentos fazem parte desse trânsito. “Muitos olhares estranhos, risadinhas. Mulheres muito mais velhas me julgam por aceitar os fios brancos tão cedo, mas eu pessoalmente não me importo”, diz.
Nesse contexto, o que poderia ser interpretado como apagamento ganha outra camada: a de presença. Para ela, os fios grisalhos não a tornam invisível, ao contrário, intensificam sua existência no espaço social.
“As pessoas se viram [para olhar para seus cabelos], mostram para outras, e eu pessoalmente tenho muito orgulho da minha juba grisalha. Sim, exala um ar de respeito.”
No fim, a escolha de não pintar o cabelo se inscreve menos como gesto estético isolado e mais como afirmação de autonomia diante de normas que regulam o feminino ao longo do tempo. “Acredito e sinto que o que está em jogo são suas próprias escolhas, se sentir realmente bem e isso às vezes incomoda os outros”, resume Elizabeth Alves, como quem nomeia, com simplicidade, uma disputa que nunca foi apenas sobre cabelo.











