
O Rio Grande do Norte tem 28% de mulheres que relataram ter vivenciado, nos 12 meses anteriores à pesquisa, ao menos uma situação concreta de violência doméstica ou familiar, mas não identificaram espontaneamente essas experiências como violência. O percentual está próximo da estimativa nacional, de 29%, dentro da margem de erro da pesquisa.
Os dados integram a atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), pelo Instituto Natura e pela Gênero e Número. O levantamento permite comparar situações de violência relatadas pelas entrevistadas com aquelas que são reconhecidas por elas como violência doméstica ou familiar.
A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher foi realizada pelo DataSenado em 2025. Foram entrevistadas 21.641 mulheres com 16 anos ou mais, em todo o país, entre 16 de maio e 8 de julho daquele ano. A pesquisa tem amostra probabilística e nível de confiança de 95%.
“Ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar na Rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.
Dados sobre violência entre as potiguares
Segundo a pesquisa, 21% das mulheres do Rio Grande do Norte afirmaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Entre elas, 18% disseram ter passado por esse tipo de violência nos 12 meses anteriores ao levantamento.
Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência provocada por um homem, os principais tipos relatados foram:
- 86% sofreram violência psicológica;
- 82% sofreram violência moral;
- 80% sofreram violência física.
Em 66% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão. Do total de vítimas no estado, 20% ainda convivem com a pessoa que as agrediu. Entre essas mulheres, 82% moram com o agressor.
Nas situações consideradas mais graves, 49% das entrevistadas disseram que o agressor estava bêbado, enquanto 45% relataram ciúmes e 43% afirmaram que ele estava inconformado com o término ou tentativa de término do relacionamento.
Entre as mulheres que encerraram o relacionamento com o agressor, 75% disseram que a violência teve muita influência na decisão.
A violência também interferiu em diferentes áreas da vida das vítimas. Os impactos relatados foram:
- 70% na rotina diária;
- 63% no convívio com outras pessoas;
- 48% na vida profissional ou no trabalho remunerado;
- 40% nos estudos.
“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado e que a violência não termina quando a agressão acaba. Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida. Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violência de gênero exige mais do que responder à agressão: exige políticas capazes de olhar para as condições que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.
Conhecimento sobre serviços de proteção
A pesquisa também identificou diferenças no grau de conhecimento das potiguares sobre instrumentos de proteção às mulheres.
Embora 94% tenham afirmado conhecer ou já ter ouvido falar da Delegacia da Mulher e 78% conheçam o Ligue 180, 70% disseram conhecer pouco a Lei Maria da Penha e 11% afirmaram não conhecer nada sobre a legislação.
Em relação às medidas protetivas, 69% declararam conhecê-las pouco e 17% disseram não ter conhecimento sobre esse mecanismo.
Entre os serviços de proteção mais conhecidos no estado estão:
- Delegacia da Mulher: 94%;
- Defensoria Pública: 86%;
- CRAS ou CREAS: 81%;
- Ligue 180: 78%.
Além disso, 68% das entrevistadas afirmaram conhecer alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência doméstica ou familiar.
O levantamento mostra ainda que 76% das potiguares perceberam aumento da violência doméstica e familiar contra mulheres nos 12 meses anteriores à pesquisa. Para 70%, o Brasil é um país “muito machista”.
Diferença entre violência vivenciada e violência reconhecida
No cenário nacional, a pesquisa aponta uma diferença entre o número de mulheres que identificam espontaneamente uma situação como violência e aquelas que relatam experiências concretas quando são apresentadas a situações específicas.
De acordo com os dados, quase 29 milhões de mulheres sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa. Desse grupo, 24,97 milhões, cerca de 87%, relataram situações compatíveis com violência sem classificá-las espontaneamente como violência.
Outras 1,87 milhão de mulheres declararam ter sofrido violência, mas não procuraram a delegacia, o Ligue 180 ou o 190. Somados, os dois grupos representam 26,84 milhões de brasileiras, ou 93,6% das vítimas, que ficaram fora da busca por proteção policial.
Para Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura, os números indicam que a dimensão do problema supera o que aparece nos registros oficiais.
“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo. Se a mulher não reconhece o que vive como violência, torna-se muito mais difícil procurar proteção e acolhimento. Por isso, informação de qualidade não é algo acessório: é parte fundamental de qualquer política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres. Não basta que a rede esteja preparada para acolher quem chega; precisamos também criar caminhos para alcançar quem ainda não consegue reconhecer que pode buscar ajuda”, afirma Beatriz.
A pesquisa indica que apenas 4% das brasileiras declararam espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores. Quando as perguntas passaram a apresentar situações específicas, sem utilizar diretamente o termo “violência”, o percentual chegou a 33%.
A diferença, equivalente a 29% da população feminina brasileira, corresponde às mulheres que relataram experiências compatíveis com violência, mas não as identificaram espontaneamente dessa maneira.
“Creio que a grande contribuição do Senado Federal seja revelar a realidade da violência doméstica contra as mulheres, em todas as unidades da Federação, e, mais importante, expor claramente como esta realidade ainda está muito distante dos registros oficiais de todas estas localidades, logo, do alcance de políticas públicas efetivas. O Mapa Nacional não é apenas mais um agregador de dados sobre o tema, ao contrário, é talvez o principal instrumento público, efetivo, capaz de expor, comparar, confrontar e mudar a realidade vivida, a cada 12 meses, pelas mulheres no Brasil”, afirma José Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado.














