
A discussão sobre os impactos do uso excessivo de telas na saúde mental de crianças e adolescentes está cada vez mais presente nas escolas brasileiras. É o que revela a pesquisa TIC Educação 2025, divulgada nesta semana pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), que aponta que 80% das instituições de ensino públicas e privadas já promovem debates sobre os efeitos da superexposição ao ambiente digital.
O levantamento ouviu 2.404 gestores escolares em todo o país e mostra um crescimento expressivo em relação ao ano anterior. Em 2024, 62% das escolas abordavam o tema. Em 2025, esse percentual chegou a quatro em cada cinco instituições. O estudo também indica que 75% das escolas realizam reuniões com pais e responsáveis para orientar sobre o uso de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes.
Para a diretora da Casa Escola, Priscila Griner, o resultado da pesquisa confirma uma preocupação que vem se consolidando no ambiente educacional.
“A tecnologia faz parte da vida dos nossos alunos e seria um erro ignorar essa realidade. O desafio está em utilizá-la de forma consciente, sempre que ela amplia as possibilidades de aprendizagem, sem abrir mão de experiências fundamentais para o desenvolvimento, como o contato com a natureza, as brincadeiras e as atividades manuais”, destaca.
Segundo ela, na Casa Escola o uso de celulares acontece de forma planejada e vinculado aos objetivos pedagógicos. Fora desse contexto, a instituição prioriza atividades que estimulem a criatividade, a autonomia, a concentração e a convivência entre os estudantes.
“Não somos contra a tecnologia. Pelo contrário: queremos que nossos estudantes aprendam a utilizá-la de forma crítica e responsável. Mas ela não pode ocupar o espaço de experiências que nenhuma tela substitui”, ressalta.
Participação das famílias ainda é desafio
Apesar do avanço da educação digital nas escolas, a pesquisa aponta que o envolvimento das famílias continua sendo um dos principais obstáculos para consolidar essas ações. Entre as instituições que desenvolvem iniciativas sobre o tema, 75% afirmam que a baixa participação dos pais dificulta a efetividade do trabalho. Além disso, quase metade das escolas informou já ter sido procurada por responsáveis em busca de orientações sobre como mediar o uso da tecnologia pelos filhos.
Para a psicóloga da Casa Escola, Juliana Guedes, esse cenário reforça a importância do fortalecimento das relações familiares.
“Na era digital, o acesso constante à informação e às redes sociais têm ampliado a insegurança de muitas famílias sobre como educar seus filhos. Ao mesmo tempo, esse excesso de estímulos pode enfraquecer a conexão entre pais e filhos, justamente quando as crianças mais precisam de presença, escuta e vínculos seguros. É por isso que, na Casa Escola, investimos em espaços permanentes de diálogo, escuta e orientação às famílias, entendendo que a saúde mental também se fortalece nessas relações”, avalia Juliana.
Inteligência artificial avança nas escolas
O estudo também mostra que a inteligência artificial já integra o cotidiano de muitas instituições de ensino. Mais da metade dos gestores entrevistados afirmou utilizar ferramentas de IA em atividades administrativas ou pedagógicas. No entanto, apenas 22% das escolas possuem diretrizes formais para orientar o uso desses recursos.
Para Priscila Griner, a adoção da inteligência artificial deve ocorrer de forma planejada e alinhada aos objetivos educacionais.
“Na Casa Escola, entendemos que a inteligência artificial deve ser incorporada à educação com intencionalidade pedagógica e responsabilidade. Para os professores, ela apoia a elaboração de adaptações curriculares, o aprofundamento e a diversificação de conteúdos e metodologias, além de otimizar processos administrativos. Esse ganho também amplia as possibilidades de um acompanhamento mais individualizado dos alunos, respeitando seus ritmos, interesses e necessidades”, afirma.
Ela acrescenta que o uso da tecnologia pelos estudantes deve estimular o pensamento crítico e a autonomia.
“Já para os estudantes, o acesso à IA precisa acontecer de forma criteriosa. Mais do que oferecer respostas prontas, ela deve contribuir para o desenvolvimento da autonomia para aprender, da capacidade de investigar, questionar e produzir conhecimento. Cabe à escola ensinar o uso ético, crítico e responsável dessas ferramentas. A inteligência artificial pode ampliar o acesso ao conhecimento, mas é a inteligência humana que continua dando sentido e atribuindo significado ao que se aprende”, conclui a diretora.
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